quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DESOPILANDO...


E o que me resta senão o teu verb to be mal conjugado, teu parnasianismo barato e pretensioso.

Duas pedras de gelo, e mais uma dose de ego travestido em poesia.

E eu que nunca fui boa em assuntos acabados e com algum nexo.

Nada contra assuntos que fazem realmente algum sentido, mas francamente, acho tão enfadonho...

E tipos como tu tão previsíveis que chegam a surpreender.

Contraditório, confesso. Mas sabe aquelas coisas que são tão óbvias que chegam a nos causar dúvidas?

Às vezes não entendo por que insisto em cultivar certas coisas.

Meu tédio nunca resistiu a certas excentricidades, por mais piegas que fossem (existe pieguice excêntrica?), talvez pra compensar alguma fragilidade, ou mesmo a falta de...

Como é mesmo o nome daquele treco que sempre falta?

Acho que ainda não inventaram.

E se o meu não-talvez-quem sabe-sempre-sim tão bem ensaiado resolvesse algo que não fosse meramente ilustrativo talvez houvesse algo a que me prender.

Mas também o que seria da vida sem certas desnecessariedades não?

Acho que tem algo a ver com aquela coisa da gente ter que se sentir vivo, disposto entre outras ladainhas de bem-estar e blá-blá-blás dessa gente que acha que pensa e sabe o que está fazendo assim como...

Assim como eu?

Deve ser esse meu jeito fechado, displicente com tudo, o inconsciente deve tentar compensar de alguma forma.

But the time is gone and the song is over...

E acho até que fico bem vestida assim.

Esse certo ar de “não sei o quê” revigora, não por falta de vocabulário, mas pela beleza da incerteza mesmo.

Vai ver que o “não saber” com o passar do tempo aumente o valor dessas coisas não sabidas.

Receio que quando descobrir o valor seja alto demais.

Faça suas apostas!

And play the game baby!

E depois, tu nem sabe fazer de outro jeito.

terça-feira, 27 de julho de 2010

SE MOVENDO


Os Pensamentos escapam da cabeça cada vez mais rápido ultimamente, exceto um.

“Continue se movendo”, ela repete pra si mesma sem parar.

O mantra de Amora...

E assim ela continua se movendo, mesmo por lugares onde não devia.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

KEEP YOUR SUNNY SIDE UP

E lá vai ela outra vez...
A correr pela floresta,
Em seu imutável caminho,
Onde nada mais lhe resta.

Não chores pequena Baez.
Se tens apenas a aresta
De um coração em moinho
Que façamos uma grande festa!

Traga teu uísque escocês,
Tome parte em nossa seresta.
Entregue-nos teus espinhos,
Não espie pelas frestas

Vista teu azul xadrez.
Às favas com a alma modesta!
Hoje os pássaros deixam os ninhos,
Da sanidade que não se contesta.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

PALIATIVO


O barulho vigoroso das rodas nos trilhos traz a liberdade montada em pégaso, como o grito a plenos pulmões que não dou, nem hei de dar...

sábado, 26 de junho de 2010

Poá, 08 de junho de 1975


Prezado amigo Nicodemos,

O motivo destas mal traçadas linhas é para comunicar-lhe que sua mãe, Dona Epifânia, sucedeu óbito na noite de ontem.

Sei que será um choque esta notícia, mas choque maior recebeu a falecida, precisamente 2.000 volts.

Você sabe que na vida rotineira em que ela levava havia momentos em que parecia procurar pela morte. Muitas vezes a encontrei bêbada, caída na calçada ao lado de dois cães moribundos.

Todo mundo me perguntava por que ela bebia...

Nicodemos, a nossa amizade me permite dizer a verdade, sua mãe era uma cachaceira de mão cheia! Acordava com uma garrafa debaixo do braço e não largava mais durante o resto do dia!

No momento de sua morte a pobrezinha estava tomando um banho bem demorado, como era de costume. Ah compadre! E o cheiro que emanava do banheiro não era diferente de uma fossa aberta, isso por que a cachaça impregnada no corpo dela saía com a água quente, e após 45 minutos embaixo do chuveiro, ela resolveu aumentar a temperatura, pois aquela pele cozida pela marvada já não apresentava mais muita sensibilidade.

Meu amigo, juro que não tive culpa, eu não deixei os fios descascados propositadamente. Nunca esperei que isso viesse acontecer um dia, mas você deve entender que onde ela estiver deverá estar melhor que aqui.



Um abraço e os pêsames de seu amigo e compadre,


João Batista da Gama.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O RETORNO

Dia cinza.

Dia desses que eu gosto.

Despeço-me dele e sigo meu caminho rumo à labuta de todo dia.

Compro um bilhete ferroviário em uma barraca clandestina.

Tenho receio em saber se o bilhete vai passar na catraca ou não.

Ele passa.

Subo as escadas.

Parte dela está interditada, o que estreita a passagem de uma multidão que sobe e desce apressada no baile descompassado do cotidiano. Porém dessa vez há muito mais passageiros que o habitual.

Engravatados, viciados, putas, crianças, senhoras distintas...

Todos ligados... Se chocando...

O rapaz na minha frente se choca contra uma gestante e ela pragueja.

Os dois seguem...

Parecem ansiosos...

Todos parecem ansiosos.

Algo iminente...

Termino o lance de escadas e paro na passarela.

Assusto-me.

Olho em volta e vejo gente tomando conta das três escadarias, da passarela, das plataformas, da linha do trem e em todos os lugares onde posso ver.

Do alto de onde estou vejo mais adiante, na linha do trem, uma espécie de altar: um tapete com uma tenda apache amarela de onde sai muita fumaça e o som frenético de batuques tribais.

Pergunto a um guru sentado em um tapete do meu lado quem está lá dentro.

Ele me responde que se trata de Manson, Perry Manson.

Arregalo os olhos e me ponho a rir.

Pergunto se todos ficarão ali a esperá-lo e adorá-lo como um messias.

O guru responde com uma expressão de dúvida, faz um gesto de “lava-mãos” e volta à sua meditação.

Eis o anticristo! Penso eu.

Acordo.

Logo torno a adormecer.